Ao longo de cinco décadas de trajetória, Maria Lídia Magliani desenvolveu uma obra vibrante e diversa, que abrange desenho, pintura, ilustração e dramaturgia. A artista inicia sua produção nos anos 1960, apresentando uma pintura matérica, de tons rebaixados, por vezes sépia, e que incorpora, ocasionalmente, colagens de jornais e objetos. No início dos anos 1980, sua prática pictórica passa por uma fase ácida, trazendo cores lisérgicas que animam os tons antes soturnos. Já na segunda metade da década de 1980, Magliani faz convergir essas duas fases iniciais em um corpo de obra singular. Por meio de pinceladas ágeis e de uma paleta cromática desconcertante, a artista aborda uma espécie de noir brasileiro, fundamentado na força de uma figuração expressionista, em que cenas atmosféricas e corpos voluptuosos emergem de gestos tão líricos quanto violentos.
Magliani atravessou dimensões raciais e de gênero de maneira interseccional, décadas antes desses debates se tornarem centrais no cenário artístico. Conectada à produção intelectual brasileira do final do século XX, dialogava de maneira próxima com Iberê Camargo, com o poeta Caio Fernando Abreu e com a crítica de arte Angélica de Moraes, entre outros agentes do campo, relações registradas em cartas que mantiveram viva a voz da artista.
Desde sua primeira exposição individual realizada em 1966 na Galeria Espaço, em Porto Alegre, Magliani manteve-se em constante circulação, com mostras monográficas expressivas: Pinacoteca de São Paulo (1981); Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS (1986, Porto Alegre); Musée Imaginaire (2011, Bruxelas, Bélgica). Após seu falecimento em 2012, sua obra ganhou nova visibilidade em exposições como: “Magliani: a solidão do corpo” (2013, Pinacoteca Aldo Locatelli, Porto Alegre); “Magliani” (2022, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre); “Magliani Gráfica” (2023, Museu de Arte Murilo Mendes, Juiz de Fora); e “Até de repente: Maria Lídia Magliani” (2025, Galeria Bolsa de Arte, São Paulo).
Participou da 18º Bienal de São Paulo (1985), no núcleo “Expressionismo no Brasil: Heranças e Afinidades”. Também foi figura recorrente no Panorama de Arte Brasileira, presente nas edições de 1981, 1985, 1987 e 1993. Dentre outras diversas exposições coletivas que participou ao longo de sua carreira, destacam-se “Connections Project/Conexus (1989, MAC USP, São Paulo); “Introspectives: Contemporary Art by Americans and Brazilians of African Descent” (1989, California African American Museum, Los Angeles; Bronx Museum of the Arts, New York, USA); “O triunfo do contemporâneo 20 anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (2012, Santander Cultural, Porto Alegre); “Matéria Difusa: Um olhar sobre a coleção MACRS (2022, Galeria de Arte Gerd Bornheim, Caxias do Sul) e “Mãos: 35 anos da Mão Afro-Brasileira” (2023, Museu Afro Brasil Emanoel Araújo; MAM São Paulo).
Sua obra compõe o acervo de instituições como a Fundação Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre), Galeria do Paço Municipal (Porto Alegre), Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Salvador), Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (São Paulo), Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP(São Paulo), Brasil Museu de Arte do Rio – MAR (Rio de Janeiro), Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Pelotas), Museu de Arte Moderna – MAM (São Paulo), Museu de Artes do Rio Grande do Sul Ado Malagoli – MARGS (Porto Alegre), Museu de Arte de Santa Catarina – MASC (Florianópolis), Pinacoteca Barão de Santo Ângelo (Porto Alegre) e a Pinacoteca de São Paulo (São Paulo).